Abrão continuou crendo no Senhor

A versão bíblica Corrigida de Almeida, se referindo a Abrão, declara: “e creu ele no Senhor, e foi-lhe imputado isto por justiça”. Essa afirmação é bastante relevante no contexto cristão, tendo em vista ser citada posteriormente por Paulo (Rm. 4.3; Gl. 3.6) e Tiago (Tg. 2.23). Por esse motivo, faz-se necessário refletir a respeito do seu significado, identificando suas nuances a parti do hebraico bíblico. Destacamos, a princípio, que o verbo aman no início do versículo se encontra no contínuo, e não no perfeito.

Sendo assim, uma tradução mais apropriada seria: “ele estava crendo”, ao invés de “ele creu”. Trata-se do aspecto do verbo, e te ver com sua duração, que nem sempre é traduzida nas versões bíblicas. Mas esse significado é importante, pois demarca se uma ação foi concluída ou se encontra em curso. No versículo em foco, indica que Abrão não terminou de crer no Senhor, mas que estava ainda acreditando. Certamente o patriarca começou a crer no Senhor quando se encontrava ainda em Canaã (Gn. 12).

No entanto, sua crença estava ainda em andamento, e o motivava a seguir adiante. Na verdade, ao acompanharmos a vida de Abrão (hb. pai exaltado) no Gênesis, até que esse venha a ser chamado Abraão (hb. pai de uma multidão), mostra que sua fé crescia, ao longo da experiência com Deus. A fé de Abrão, como acontece com a maioria dos crentes, foi testada, resultando em maturidade.  Certamente, o maior teste na vida de Abrão se encontra em Gn. 22, quando foi desafiado a sacrificar seu próprio filho. Tiago, ao ressaltar a fé do patriarca, estava se referindo a esse episódio.

Tiago e Paulo enfocam de maneira diferenciada esse versículo, o primeiro ressalta o desafio enfrentado pelo patriarca na subida ao Monte, a fim de sacrificar seu próprio filho. Enquanto que o último demarca a segunda parte do versículo, na qual está escrito que “foi-lhe imputado por justiça”.  Nessa segunda parte do texto, diferentemente da primeira, a ação foi completada, pois em hebraico se trata de um wayyiqtol, uma ação que está finalizada no passado.

Outro detalhe importante nesse versículo é a ambiguidade com a qual no deparamos no “lhe”, que somente poderá ser dirimida pelo contexto. Faz-se necessário determinar se esse “lhe” se refere a Deus que justificou Abrão ou se foi a fidelidade de Deus que o justificou. É mais provável, pelo contexto de Romanos 4, que o “lhe” se refira à “fidelidade de Abrão”, por meio da qual o patriarca foi declarado justo, sendo considerado “pai daqueles que creem” (Hb. 11.1). Aprendemos, com base em Gn. 15.6, e nas referências de Paulo e Tiago, que Abrão “continuou crendo ou confiando no Senhor”.

Em suma, a partir da análise desse texto em hebraico, somos desafiados a seguir adiante, e reconhecer que nossa fé é continua, e está sempre em progresso, sendo submetida a teste, a fim de alcançarmos maturidade. Podemos afirmar que cremos no Senhor (no passado), ao mesmo tempo em que “estamos crendo” (no presente), continuaremos crendo (no futuro), a fim de sermos recompensados.

Como Abraão, devemos continuar crendo “contra toda esperança” (Rm. 4.18), apesar das adversidades, confiantes na justiça divina, que nos conduz firmes, até o fim.

Ev. José Roberto A. Barbosa (Teólogo e Linguista, membro da Diretoria e Superintendente Geral da Escola Bíblica Dominical da IEADEM)

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